1-O atendimento inicial às urgências e emergências
O leigo, quando presente na cena de uma urgência ou emergência, para iniciar o socorro à vítima, deve pedir ajuda à outros leigos que estejam próximos a ele, ligar para 192 informando sua identificação, localização e o que está acontecendo diante de si. O telefonista, técnico auxiliar de regulação medica(TARM), de posse desses dados, transmite o caso ao médico regulador da central do SAMU. O profissional médico avaliando as variáveis envolvidas(prioridades para o sistema e estado da vítima), decide sobre a necessidade de encaminhar o socorro ou orientar que a vítima seja encaminhada para assistência médica por meios próprios. O médico regulador, neste momento, assume a responsabilidade pelo atendimento, segundo a legislação que rege a telemedicina. É dever do regulador inclusive, orientar o leigo sobre procedimentos de primeiros socorros a serem realizados por quem está junto à vítima, com o intuito de mantê-la viva até a chegada da ambulância.

2-O leigo e o sistema de emergência
O início do atendimento das urgências e emergências extra-hospitalares é realizado pelo leigo, que pede ajuda aos outros leigos próximos a ele, e ao SAMU. O leigo, ao ligar o192, aciona um sistema extremamente complexo. O SAMU depende do leigo, não somente como ativador e informante que orienta o médico regulador sobre qual recurso deve disponibilizar para o chamado. O leigo também participa do atendimento à vítima como um agente ativo através da execução de procedimentos orientados pelo médico regulador, os quais, quando bem executadas, aumentarão as chances da vítima, mantendo-a com vida, enquanto aguarda a chegada do atendimento médico.
Sem o este primeiro atendimento realizado pelo leigo, o profissional de saúde do SAMU encontrará a vítima em estado mais grave que o inicial, ou já sem vida.

As habilidades técnicas de primeiros socorros orientadas pelo médico regulador do SAMU ao leigo, variam de ações simples, visando melhorar a postura da vítima e facilitar a sua respiração, nos casos em que a vítima encontra-se respirando, porém, se a vítima não respira e não responde aos chamados, o médico regulador orientará que o leigo realize habilidades técnicas mais complexas, porém fáceis de serem ensinadas à população em um ambiente controlado como uma sala de aula, inclusive através de vídeos aula e com a utilização de simples manequins. Há manobras de primeiros socorros que não devem aguardar a chegada do socorro médico para serem iniciadas, são elas manobras que pertencem ao leigo, e, portanto, não são exclusivas dos profissionais de saúde.
O leigo, ao antecipar-se à chegada do socorro médico executando as orientações do regulador do SAMU, torna-se um personagem essencial na política de atendimento às urgências e emergências, influenciando diretamente no desfecho do atendimento: óbitos, altas hospitalares, sequelas e suas repercussões emocionais, previdenciárias e pecuniárias.

3-A epidemia de urgências e emergências
As urgências e emergências são situações comuns no cotidiano das cidades e do campo. Aumentam seu número de forma direta com o aumento populacional, com o aumento da expectativa de vida, das demandas da vida moderna, com o aumento da violência interpessoal, etc. O tratamento inicial das urgências e emergências, apesar de depender dos leigos, não faz parte do currículo escolar, como também não é divulgado de forma eficiente pelas instituições ou governos.

4-Os primeiros socorros não são conhecimentos exclusivos de trabalhadores da saúde.
A ideia de que os primeiros socorros são conhecimentos pertencentes exclusivamente aos trabalhadores da saúde é errada.
Os primeiros socorros representam um conjunto de ações desenvolvidas para serem realizadas pelo leigo que está com a vítima e que ajudam às equipes de suporte avançado, pois podem evitar o agravamento do quadro clínico.
O suporte de vida avançado, de outro modo, deve ser exclusivo de profissionais de saúde e requerem treinamento específico. Sem os primeiros socorros, mesmo o suporte avançado, pode não ser efetivo em salvar uma vítima de engasgo, inconsciente, ou em parada cardiorrespiratória de qualquer que seja a etiologia.

6-A tomada de decisão em iniciar os primeiros socorros: habilidades não técnicas.
A disseminação da cultura de que os primeiros socorros pertencem à comunidade, poderia ajudar ao leigo na tomada de decisão em executar o primeiro atendimento em casos de urgência e emergência.
O tratamento inicial das urgências e emergências deve ter início o mais precocemente possível, as vezes no local da ocorrência, pelo leigo que está mais próximo da vítima, pois, com o passar dos minutos, há agravamento do quadro clínico e piora do prognóstico da vítima.

Após quatro minutos há morte cerebral por ausência de oxigenação, e a cada minuto perde-se dez por cento da possibilidade de reversão de uma taquiarritmia causadora de parada cardíaca.
O medo de contaminar-se, a falta de conhecimento em primeiros socorros e o receio em ser responsabilizado criminalmente por danos à vítima, estão entre os fatores que influenciam negativamente o leigo na tomada de decisão em aproximar-se da vítima, pedir auxílio, acionar o sistema de emergência e realizar as ações orientadas pelo médico regulador.

7-Os programas de treinamento para leigos
A cultura de que os primeiros socorros devem ser executados por paramédicos apenas, gera a falsa ideia de que os investimentos na área de atenção às urgências e emergências devem ser voltados somente para a construção de hospitais, aquisição de equipamentos e treinamento dos profissionais da saúde: um ciclo crescente de gastos que apenas fortalece esta cultura equivocada. Uma nova cultura de treinamento para o atendimento às urgências e emergências que envolva os leigos deve ser implantada para melhorar as estatísticas do atendimento.

8-O conteúdo e as habilidades técnicas em primeiros socorros
A prevenção de acidentes, violência e doenças, o estímulo aos hábitos saudáveis de vida, o SUS e o sistema de emergência são conteúdos que deveriam ser do conhecimento do leigo. No caso dos atendimentos às urgências e emergências, poderiam reduzir o número de chamadas indevidas ao 192, que hoje, em algumas cidades chegam a metade do total das chamadas do SAMU. A difusão dos primeiros socorros poderia, também estimular o leigo na tomada de decisão em iniciar o primeiro atendimento às vítimas de urgência e emergência.
As habilidades técnicas exigidas do leigo para o primeiro atendimento encontram-se identificadas e classificadas por faixa etária, iniciando-se com a idade de 5 anos. Assim, pedir ajuda, ligar 192, colocar as mãos em água corrente para tratar uma queimadura nas mãos, abrir a porta, deve ser do domínio de crianças, enquanto outros conteúdos como as compressões torácicas, a partir da adolescência podem ser ensinadas. Estes conteúdos devem ser periodicamente repetidos, pois, de três a seis meses metade do conhecimento aprendido é esquecido.
Habilidades técnicas como a manobra de Heimlich para tratamento de obstrução de vias aéreas por corpo estranho; a compressão de um vaso sanguíneo para estancar hemorragias; o posicionamento lateral da vítima que apresenta convulsão facilitando sua respiração e evitando aspiração do conteúdo gástrico ou excesso de saliva; e as compressões torácicas em situações em que a vítima não respira e não responde, são as principais habilidades que o leigo deve aprender, pois são as habilidades que o médico regulador do SAMU solicitará que sejam executadas pelo leigo até a chegada da equipe de suporte avançado.

9-As habilidades não técnicas em primeiros socorros
Ao contrário dos profissionais da saúde, o leigo não desenvolveu e não pratica com frequência as habilidades de comunicação com a equipe que está auxiliando no socorro; o controle emocional necessário para o atendimento; o foco nas orientações a serem cumpridas, dentre outros aspectos, que são habilidades não técnicas importantes na tomada de decisão de iniciar um atendimento e executa-lo, apesar das dificuldades.

10-O papel das instituições na divulgação dos primeiros socorros
As instituições devem ser reconhecidas como locais com segurança em saúde onde o leigo sinta-se confiante em tomar a decisão de pedir ajuda e iniciar os primeiros socorros em um eventual acidente ou outro quadro de urgência ou emergência, sem demora. Para tanto, as instituições públicas e privadas devem divulgar seus programas de prevenção à doenças, acidentes e violências, além de publicizar seus protocolos de atenção às urgências e emergências.

11-Os protocolos institucionais de atenção às urgências e emergências devem ser publicizados.
Os setores de Segurança do Trabalho das instituições representam um suporte ao SAMU, propiciando que os atendimentos às urgências e emergências nas instituições públicas e privadas sejam iniciados sem demora.
Em espaços de uso coletivo os colaboradores devem conhecer os primeiros socorros, e os setores de segurança do trabalho devem dar suporte ao leigo que faz o primeiro atendimento à vítima. Informar aos colaboradores que o setor de segurança do trabalho encontra-se apto a dar suporte ao leigo no atendimento, antes mesmo da chegada do SAMU, poderia também influenciar o leigo positivamente na tomada de decisão em iniciar o atendimento.
Um exemplo da importância da presença de grupos de pessoas leigas treinadas em primeiros socorros nas instituições pode ser visto no atendimento à parada cardiorrespiratória: evento clínico de maior estresse físico e psicológico para o socorrista, onde a cada dois minutos a pessoa que executa as compressões torácicas deve ser substituída por um outra, evitando-se à exaustão daquele que presta o atendimento inicial.

12-A capilaridade da internet e seu papel no estímulo ao leigo na tomada de decisão em iniciar os primeiros socorros
A internet através de sua capilaridade, tem um grande potencial na disseminação de conteúdos sobre prevenção de doenças, acidentes e violência, sobre os hábitos saudáveis de vida, o SUS, o sistema de emergência e os primeiros socorros, entre outros. A internet permite à comunidade ter acesso a estes conteúdos nos lares, na escola, nos locais de trabalho e laser, em horários flexíveis. A educação em saúde deve urgentemente chegar ao leigo para que o SUS consiga enfrentar melhor epidemias como a de acidentes de motocicletas e doenças cardiovasculares.

Proposta do trabalho
Estimular que os setores de segurança do trabalho das instituições divulguem protocolos de atendimentos à vítimas de urgência e emergência nas suas páginas na internet ou em plataformas específicas, na forma de vídeos de fácil compreensão, e que estes possam ser acessadas pelos colaboradores e usuários. Está ação educativa poderia ser estimulada com um reconhecimento público, através de um selo que representasse uma ação social pela melhoria do sistema de emergência do SUS.